segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Delimites


Hoje, recriei o mundo,
delimitei as medidas que não lhe cabiam,
tracei distancias entre o certo e o lógico,
o erro e o acaso,
acusei os limites nas estradas curvas da razão,
curvas sinuosas,
atribuí peso ao amor,
mal me segurei em pé,
abreviei as capacidades da memória,
subtraí da alma a experiência
dando conta do que se foi aprendido,
apreendido,
mostrei os efeitos dos tapas da vida
e os desdéns da indiferença,
a carcinosidade do orgulho
e a inexplicabilidade da crença.
Descobri que o tamanho das coisas
não está nos olhos,
mas em nossa cabeça.

Alexandre Revoredo

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Eu sempre achei bonito quem gosta de ler. Aquela pose de intelectual, olhando por baixo dos óculos de grau. Tinha uma inveja danada, achava que pessoas assim sabiam de tudo na vida, e eram felizes, enganando os outros, fazendo de conta que não sabiam de nada. Felizes sim! E como explicar a cara satisfeita daquela mulher que vinha todo dia no ônibus lendo?! Toda semana um livro diferente. Parecia que comia livro. E a indiferença daquele senhor de boina que nem via o que tava acontecendo no ônibus quando tava lendo?! Parecia que tava noutro mundo. Teve uma vez que dois moleques assaltaram o cobrador e o senhor nem percebeu, nem viu. Fiquei bestinha. Pensei que se era fácil fugir assim do mundo, desse aperreio, dessa desesperança, eu ia aprender a ler. Achava mesmo que tava perdendo alguma coisa. Num sabia o que. Queria descobrir. Nem pai, nem mãe eram letrados, nunca estudaram. As coisas lá no sítio não eram fáceis. Deu trabalho pra eu estudar, mas eles faziam questão, diziam que eu era inteligente. Ainda bem que arrumei esse emprego na escola, gosto de cozinhar, no meio do mês acaba a merenda das crianças mesmo, me sobra tempo pra ler. Até que já tô lendo direitinho, embora num consiga entender umas palavras. Aquelas que a gente não usava no sítio. Aquele senhor me disse que se eu pegasse um dicionário e procurasse, além de entender melhor, eu até aprenderia mais. Segui o conselho, no começo me dava uma desimpaciência, mas depois acostumei. Ler é bom demais, e apesar de meu marido me condenar quase sempre, nem ligo, tô é me divertindo, e esquecendo meus problemas. Já notou como eu tô falando mais bonito?! Tá todo mundo dizendo.


Alexandre Revoredo

*Texto a revisar

segunda-feira, 17 de setembro de 2012


Não está para as formas
milimétricas métricas;
Nem para populares
ou intelectuais seculares;
Nem para o impetuoso literato
ou o anêmico acadêmico;
Nem para a menininha apaixonada
vestidinho em flor,
inocência bordada;  
Ou para o rapaz militante
preocupado, social,
politicamente atuante;
Não serve como auto-ajuda
na hora do Deus-nos-acuda;
Se cria palavras novas,
se fala palavras mudas,
retratos cotidianos,
ou imagens absurdas;
Não está aqui para deleite
nem tão pouco, como um enfeite
nem está para o olho que chora,
nem sequer para o olhar que ri.

A poesia não está nem aí!

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A difícil vida fácil!

Estudar para estatística, comprar lingerie, ler Marx enquanto faz as unhas, trabalho de cálculo, academia, aeróbica (1 hora), anunciar nos classificados, malhação, agendar compromissos, escovinha enquanto lê a sessão de economia do jornal, atender clientes (4, só a tarde), depilação, acessórios sexuais, aguentar o gerente do banco, gordo, peludo e suado, trabalho em grupo, sexo grupal! Ufa! e há quem diga que essa vida de garota de programa universitária é fácil.


Alexandre Revoredo

quarta-feira, 8 de junho de 2011

"Poema expressionista abstrato vanguardista contemporâneo" ou "F de gramática e R de línguística"

"O frio esfria o fio, resfria a esfirra e o refri, ferra a farra, faz no ferro ferrugem e nos faz forrar o forro _ e o Cebolinha tloca as letlas."

Alexandre Revoredo 08/06/2011

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Convite


Convite

Vem ser artista comigo...

Nosso domingo passa a ser na segunda

Nosso patrão, a gente dá um pé-na-bunda

Vem ser artista comigo...

Vamo sair pelo mundo, criando e representando,

cantando o que o povo sente, seja rindo ou chorando

Vem ser artista comigo...

No palco, no chão, e na vida, sem deixar cair o pano

E poder tornar eterno, qualquer dia, mês ou ano

Vem ser artista comigo...

pra bater perna no mundo, meio assim, feito cigano

e varar as noites nuas, felizes, esse é o plano

Vem ser artista comigo...

Ser feliz, fazer feliz, e a vida ir ganhando

O convite já está feito to apenas te esperando.

Alexandre Revoredo, 19/05/2011


Para Ster.



sexta-feira, 18 de março de 2011

Mea Culpa?

Choveu, raiou, gritou o trovão, é o planeta reclamando seu direito de cidadão, as cidades clamam, embaixo das casas, água em cima das casas, água. Passam pontes, viadutos, aos montes, crianças e adultos, nossas águas de março que agora são de todo o ano. Rezemos pra Nossa Senhora, sem hora pra orar, pra que caia somente uma chuva bem fininha, e não das chuvas que carregam a tua cama e a minha, que levam almas e corpos e vidas inteiras desconstruídas, indo e vindo nesse infinito mar de tristeza. É o mundo reclamando, é o solo estremecendo, é o mar se levantando, adentrando a terra, levando, lavando, ceifando sonhos.